Uma resenha de “Commodore: A Company on the Edge”

A história oficial, aquela, que às vezes é grafada com H maiúsculo, é contada pelos vencedores; no entanto, a história dos vencidos é tão, ou em muitos casos até mais, importante que a história dos vencedores para entendermos um determinado período.

O parágrafo acima, ou alguma variação menos confusa dele, deve ter servido de inspiração para Brian Bagnall escrever Commodore: A Company on the Edge. Não por acaso, boa parte do livro é gasto confrontando a história oficial sobre a Apple e os Steves, sobre Jack Tramiel (mostrando mais seu lado “bonzinho” e evitando ao máximo falar do escândalo da Atlantic Acceptance), ou mesmo tentando desenhar um Chuck Peddle praticamente como um semideus infalível (tirando sua passagem pela Apple, claro).

Talvez a maior crítica que se possa fazer ao livro, por ser independente do espírito do livro, foi feita pelo Digital Antiquarium; falta um trabalho sério de copidesque, porque em muitos momentos o livro é desnecessariamente maçante de se ler.

A esta altura do campeonato, imagino que o leitor deve estar achando que o livro é uma porcaria. Não, não é, pelo contrário! O livro é fantástico, seminal para entender a companhia de origem canadense e obrigatório na biblioteca de quem gosta de retrocomputação.

O autor vai fundo na busca das pessoas que fizeram a Commodore, não apenas os mais óbvios (Jack, Gould, Peddle, Yannes, Herd), mas vai descendo até os mais obscuros engenheiros. Na medida do possível, sai dos EUA e vai para as operações mundiais da Commodore. Se preocupa em tentar explicar o peculiar processo de decisão da empresa sob Jack Tramiel. Dá um grande espaço aos protótipos que não viram a luz do dia. Não tem medo do tecniquês e das minúcias técnicas, mesmo que acarrete prejuízo da clareza do texto. E ouve os atores da história.

(E a melhor parte é quando Jack Tramiel encontra uma criação de Sir Clive Sinclair. Brian narra tudo quase como um roteiro prontinho para um filme.)

O livro acaba em 1984, logo depois da saída de Jack Tramiel da empresa. Se, por um acaso, isso deixa uma sensação de frustração (Brian promete para este ano lançar um segundo livro, só sobre a era Amiga), por outro lado permite um exercício ótimo, que é ler os últimos capítulos do livro em concomitância com os últimos capítulos do sensacional Atari Inc.: Business is Fun (que você também deveria ler, e cujos autores foram entrevistados na Jogos 80).

2 comentários sobre “Uma resenha de “Commodore: A Company on the Edge”

  1. Caro Cesar,

    Estou “a ler” este livro e considero um material excelente.

    O foco está na história da Commodore “computadores”, o autor não se detém muito na biografia de Tramiel ou na fase calculadoras.

    A descrição detalhada do processo de criação e desenvolvimento do 6502 é fantástica.

    A visão de Peddle no lançamento de um processador barato, a aposta da MOS, o processo de criação do primeiro protótipo, todo o trabalho “primitivo” e ferramentas empregadas, putzgrila, é demais.

    Claro que a divisão de calculadores têm um peso enorme da história da empresa, inclusive decisões tomadas para manter esta divisão e vencer neste mercado constantemente interferem com os destinos dos computadores da empresa.

    Estas decisões e consequências são abordadas no livro.

    A impressão que eu tenho ao longo da narrativa é como se fossem apresentados “fios” que vão se entrelaçando ao longo da história.

    E quando você se dá conta, diante de si está uma tapeçaria. Tipo “lembra deste cara que trabalhava numa fábrica de arcades mafiosa na Flórida… então…”

    E também achei interessante a questão do falecimento da enteada de Tramiel e o trauma que isto causou no empreendedor.

    Se antes ele já era casca-grossa, parece que depois do infeliz evento, Tramiel entrou no modo “berserk” para nunca mais sair. Esta é uma passagem marcante da narrativa e mostra um lado humano de Tramiel que se perdeu.

    Outro ponto interessante é os embates com a Apple, uma outra visão (Leonard T., Peddle e outros) sobre a empresa dos “Steves”.

    Sobre como Jobs foi afetado pela fortuna.

    Sobre como o marketing da Apple era mentiroso (era?) e nocivo aos produtos (era mesmo?)…

    Enfim, um livrão e que venha o do Amiga.

    Abraços,

  2. Eu estou lendo e achando ótimo o livro. A sequencia onde ele fala sobre a criação e produção do 6502 é excelente. Detalhes tecnicos e financeiros são bem interessantes. So depois de chegar no final vou poder confirmar se ele tem essas tais partes “maçantes”.

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