Redação “Minhas Férias” do dia: Veronica conhece Kansas City (e vice-versa)

ogolEm vez de simplesmente fazer uns comentários e apontar para o blog da minha eterna e inalcançável musa inspiradora nossa querida Quinn Dunki, achei que este relato da KansasFest 2014 merecia ser traduzido para a Última Flor do Lácio.

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Enfrentando umidade desumana por amor aos 8 Bits

Este ano, pela primeira vez na vida eu fui convencida a ir à KansasFest. Justiça seja feita, não foi necessária muita coação. Eu ouvia falar deste evento há vários anos, eu pensava em ir, mas nunca cheguei a puxar o gatilho até agora. Fiz as malas e me mandei para o Missouri, a terra onde toda a umidade da galáxia vai passar as férias. Se vocẽ alguma vez se perguntou como é andar dentro de uma hidromassagem infinita e de alguma maneira não se afogar, o Missouri em julho é o seu lugar.

Isto não é exatamente um hack, mas quis fazer este post porque, se você lê meu blog, você deveria estar na KFest. É basicamente o evento anual mais importante para entusiastas da retrocomputação. Sim, ele é focado nos Apple ][ (os computadores que a Apple fabricava antes de “Macintosh” ser alguma coisa) mas lá vai gente das mais diversas orientações (até mesmo, oh céus, Commodore!).

Eu não sabia exatamente o que esperar da KFest, mas eu lhes digo que o que vi foram os hacks mais épicos feitos pelas pessoas mais legais que você pode imaginar. Foi, em uma palavra, fodástico. Não há como eu cobrir todas as coisas incríveis que vi e aprendi lá, mas espero mostrar alguns destaques.

Primeira vez fora de casa!
Primeira vez fora de casa!

Obviamente, levei a Veronica e fiz uma apresentação todinha sobre ela. Eu não tinha certeza se o pessoal ia gostar dessa caixa esquisita com 6502 que não faz muita coisa, ou se eu ia conseguir carregá-la de um canto do país ao outro, por aeroportos e aviões e táxis e caronas, ou se depois disso tudo ela iria continuar funcionando. Eu não sabia se alguém ia se interessar na história dela. Todas essas incertezas se revelaram, felizmente, infundadas. A KansasFast amou a Veronica quase tanto quanto eu amei a KansasFest. Era a plateia perfeita para apreciar um computador caseiro movido a 6502, e Veronica foi muitíssimo bem recebida.

O segundo destaque foi a Boca-Livre da Garagem. É para lá que todo mundo leva seu hardware velho de Apple ][ e bota numa mesa grande para as pessoas levarem. O trato é que tudo é de graça, mas tem que permanecer na comunidade. Ou seja, é de mau tom as coisas aparecerem no eBay na semana seguinte. O objetivo é tirar o hardware dos storages e botar na mão de gente que vai fazer algo interessante com aquilo. Doações são bem-vindas, já que são algumas pessoas-chave fornecendo a maior parte do material e tendo o trabalho de expô-lo. Eu ganhei um prêmio particularmente delicioso.

Embrulhado com o máximo de carinho possível, e para minha alegria chegou em casa inteiro!
Embrulhado com o máximo de carinho possível, e para minha alegria chegou em casa inteiro!

Para os leigos, esse charmoso espécime é um Apple //c+. É meio que um patinho feio na linha Apple ][, e é por isso que eu gosto dele. Trata-se de uma revisão do popular //c, mas tem um drive de 3.5″ muito mal falado (já que praticamente nenhum software para Apple ][ saiu nesse formato), e os conectores são diferentes dos de um //c normal. Por outro lado, a Apple licenciou para ele a tecnologia Zip Chip, um sistema de aceleração para Apple ][ de outro fabricante. Esta versão vai a 4 MHz. Claro, hoje em dia isso parece nada, mas lembre-se que o software da época foi projetado para rodar rápida e suavemente a 1 MHz. Então, imagine seu PC ou Mac atual rodando a 8-12 GHz. Pois é.

A outra mudança crucial em relação ao //c é a fonte interna. O //c original tinha um trambolho parecido com o do Commodore 64 ou o do Xbox 360. Essa mudança também causou controvérsia, já que, apesar de conveniente, significou não ter mais acesso direto aos pinos de força da placa-mãe, o que permitia adaptação fácil a outras voltagens — ou mesmo a baterias. Mesmo assim, o //c+ é, para mim, uma máquina digna de ser objeto de desejo. Fiquei feliz demais da KFest tê-la colocado à disposição e dela ter ido para dentro da minha mala.

A seguir, as sessões. Ah, as sessões! Qualquer um que estiver com vontade se pronuncia e dá uma palestra sobre algo legal que fez com um Apple ][ (ou com qualquer outro treco retrocomputacional). Há tantas dessas sessões que sempre tem uma rolando, das 9 da manhã à meia-noite, em todos os seis dias do evento. Se seu plano durante as férias é ter algumas horas de sono, definitivamente a KFest não é para você. Deixa eu falar sobre alguns dos meus favoritos…

Primeiro: A2Cloud e A2Server. É uma suite de ferramentas que permite que um Apple ][ interaja com um Raspberry Pi de várias, surpreendentes e poderosas maneiras. Você pode se conectar à Internet, usar repositórios de arquivos compartilhados, ou até mesmo fazer boot remoto. Num certo momento, o criador da tecnologia fez uma demonstração dando boot num Apple IIgs por Wi-Fi de um arquivo armazenado num Raspberry Pi movido a bateria. A máquina parecia estar dando boot do nada. Truque de salão? Talvez, mas a tecnologia por trás é realmente útil. Por exemplo, você pode fazer desenvolvimento multiplataforma usando um repositório git hospedado num Un*x. Ou desenvolver uma base de código comum que pode ser testada simultaneamente num emulador local e num Apple ][ físico. São só alguns exemplos do que esse sistema é capaz. Durante a a presentação, o criador mandou uma imagem de disco de um jogo do Apple ][ dele para todo mundo na plateia. Com alguns cliques, estávamos rodando-o nos nossos próprios emuladores.

Outro favorito meu foi o Lawless Legends. É um mecanismo de ray-casting 2.5D em primeira pessoa para jogos role-playing, para Apple ][ e Commodore 64. Sim, é isso mesmo que você leu: uma engine de ray-casting em alta resolução rodando num computador de 8 bits a 1 MHz, com taxas interativas de quadros por segundo. Até ver (e jogar) eu mesma, eu jamais imaginaria que tal coisa fosse possível. Não é só petisco visual — a equipe está desenvolvendo uma engine de jogos completa. Tem editor de mapas, linguagem de script, sinalizadores de eventos, cenários descritos por dados, e é tudo código aberto. Um trabalho simplesmente espetacular.

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Este jogo exsuda fodasticidade para todo lado.

Mas nem tudo são chips e opcodes. Houve uma sessão de artesanato, comandada por Sarah Walkowiak, onde aprendemos a fazer ornamentos 3D em crochê sobre moldes de plástico. Fizemos modelitos de Apple //e, claro, completos com drives Duo Disk e logos (corretamente) multicoloridos da Apple na “tela”. Se você quer fazer os seus, Sarah compartilhou os PDFs dos padrões.

Os meus não ficaram nem de longe tão bons quanto esses, mas pelo menos aprendi algo novo!
Os meus não ficaram nem de longe tão bons quanto esses, mas pelo menos aprendi algo novo!

Voltando ao meu brinquedo novo: teve uma sessão sobre overclock no //c+. Belo exemplo do nível de conhecimento que esta comunidade tem. Descobri que existem algumas combinações de versões dos ASICs e das placas-mãe onde dá para fazer overclock até 10 MHz. (Ou mais?) Melhor ainda, se você tem uma que não pode ser overclockada, pode-se trocar um chip soquetado com o de outra máquina e aí as DUAS podem! Eu sei, é doido, mas é verdade. Os motivos exatos ficaram um pouco nebulosos para mim, já que na hora eu estava fazendo outros reparos no meu //c+. Em outra hora vou analisar esse processo de overclock. Falando nisso, fique de olho no meu site para muitos hacks futuros envolvendo o novo e amado membro da família.

Ao longo dos anos, a apresentação de abertura da KFest foi dada por vários luminares da computação dos anos 80, incluindo o próprio Woz. A deste ano foi Margot Comstock, cofundadora da SoftTalk Magazine. Ela contou várias histórias interessantes dos bastidores da indústria, e uma certa foto anônima de um Bill Budge jovem (N. do T.: programador de jogos clássicos para o Apple ][) gerou boas risadas.

Frequentemente, ótimas sessões aparecem (pelo menos para mim) do nada. Um garoto falou sobre um grupo de usuários do Japão que hackeou o GS/OS para funcionar em japonês. Eles criaram fontes, um sistema de entrada, e muitos outros detalhes para que tudo (mais ou menos) funcionasse numa máquina que não foi feita para sair dos EUA. O palestrante pegou o trabalho dos japoneses 25 anos depois e deu-lhe prosseguimento. Ele já recompilou grande parte do SO dos fontes para incorporar novas ferramentas de localização para o japonês. Um trabalho impressionante, e que eu nunca imaginaria que pessoas se disporiam a fazer. A paixão da comunidade retrocomputacional (particularmente a de Apple ][) é infinita.

Os workshops são muito populares. Vince Briel sempre aparece com alguns dos seus fantásticos kits, e o povo os monta por lá mesmo. Ótima maneira de aprender a soldar, e no final você tem um brinquedo legal para se divertir.

Um dos kits réplica de Apple I do Vince, em progresso.
Um dos kits réplica de Apple I do Vince, em progresso.

Há uma grande iniciativa de preservação ocorrendo agora nos círculos retrocomputacionais. Se você tem menos de 30 anos, talvez nunca tenha usado um disquete, mas espero que pelo menos você saiba do que se trata. O que você talvez não saiba é que disquete não é armazenamento permanente. A mídia magnética se degrada com o tempo; pelo mundo afora, disquetes estão morrendo. Na verdade, o fim previsto do tempo de vida deles é… mais ou menos por agora. Isso é um problema complicado, porque a maioria desse software tem bloqueio anti-cópia. Não fosse pelos piratas e crackers da época, não teríamos nada hoje (um argumento perfeito contra a DRM). Nada estaria legível de uma maneira que pudesse ser preservada. Na KFest, testemunhei uma iniciativa de preservação muito interessante: usando hardwares especiais como este e este, conectados a drives originais, pode-se ler a informação de fluxo magnético a altíssimas resoluções, para ser processada depois e tentar interpretar aonde estão as trilhas, setores e bytes. Isso é muito mais difícil do que parece, já que os bloqueios anti-cópia da época eram altamente agressivos. Às vezes os dados eram gravados em meia trilha, ou um quarto de trilha. Alguns usavam um padrão em espiral. Alguns tinham mais trilhas ou setores do que os drives tecnicamente permitiam. Alguns faziam uso de anormalidades físicas nos discos. Isso tudo vai muito além de alguns checksums e um pouco de criptografia, como é a DRM de hoje. Sim, a maioria dos jogos foi crackeada e está disponível, mas há milhões de títulos que não despertaram o interesse dos crackers, porque não eram jogos legais que estavam na moda. Sem iniciativas como esta, a história cultural do software será perdida em poucos anos. E não é só software. São documentos, cartas, trabalhos escolares, registros de empresas etc. Se você acha que nada disso importa, leia (ou releia) O Diário de Anne Frank.

Não há como prever o que vai acabar sendo um legado cultural importante daqui a cem anos; logo — temos que preservar tudo. Esses documentos, na maior parte, estão em formatos proprietários obsoletos, de processadores de texto e bancos de dados há muito mortos (um argumento perfeito para formatos de arquivo abertos). Se não pudermos ressuscitar o software que criou esses documentos, há grandes chances de perder tudo.

Uma pequena parte dos esforços de preservação acontecendo, à esquerda.
Uma pequena parte dos esforços de preservação acontecendo, à esquerda.

Falando em preservação, a figurinha carimbada Jason Scott compareceu, como sempre. Ele deu uma palestra sobre o trabalho feito no archive.org. Camarada divertido, que tem uma paixão contagiante pela preservação de livros e da cultura digital.

Outra sessão favorita do público foi montada por uma equipe de pai e filho, que trouxeram uma montanha-russa em miniatura da K’Nex, lançadores de foguete e vários outros gadgets, tudo controlado por um Apple //e. Essas coisas que você vê sendo feitas com Arduinos e similares no Hackaday podem ser feitas muito melhor com um Apple ][. Que basicamente é um Arduino, só que com I/O muito melhor, vídeo colorido, ferramentas de programação muito mais fáceis, e um teclado. Ah, sim, foguetes foram lançados. Eles fizeram FFFUOSSHHHH e foram aos céus. Foi glorioso.

A parte artística não se limitou ao crochê. Uma equipe da França trouxe um trabalho de arte interativa de Chris Marker do meio dos anos 80 que era dado como perdido. O disquete foi recuperado e colocado para funcionar. Chama-se Dialector, e talvez a melhor maneira de descrevê-lo seja um chat-bot reinterpretado como uma peça de arte existencial. Muito divertido, e um belo exemplo de como o BASIC em ROM dos primeiros computadores capacitava e dava poder às pessoas. A barreira de entrada para a programação era tão baixa que podia ser explorada por qualquer um como ferramenta de arte e cultura.

O Dialector tem jeito com as palavras. Um dos bons conselhos que ele nos deu foi "nunca confie em nada com mais de 256 KB". Sabedoria inquestionável.
O Dialector tem jeito com as palavras. Um dos bons conselhos que ele nos deu foi “nunca confie em nada com mais de 256 KB”. Sabedoria inquestionável.

E tem os concursos! Por exemplo, a HackFest (o vencedor fez um port perfeito do jogo 2048 para o Apple ][), o torneio de decoração de portas, a competição de jogos, o Morda-o-Saco (N. do T.: Não sei o que é e tive medo de perguntar. No original em inglês soa muito menos impróprio para menores.) e muitos outros.

Se isto não faz sentido para você, você não era um gamer de Apple II dos anos 80.
Se isto não faz sentido para você, você não era um gamer de Apple II dos anos 80.

Ainda nem falei de todas as pessoas fantásticas que encontrei. Por exemplo, o cérebro por trás do computador massivamente paralelo composto de placas-mãe de Apple ][, o Apple Crate. Na versão anterior, elas eram interligadas pela porta de cassete, mas agora usam a de joystick. Também encontrei meus podcasters preferidos, dos ótimos Retrocomputing Roundtable, No Quarter, ANTIC, RetroMacCast, Floppy Days e Drop /// Inches. Falando nisso, mexi num  Apple /// de verdade, num Pippin, e outras esquisitices raras do passado distante da Apple.

E os brinquedos? Tinha CFFA3000’s e chips SID enfiados em Apple ][s. Tinha Transwarps overclockadas aquecendo o prédio inteiro. Tinha uma tela de LCD enxertada cirurgicamente num //c. Tinha impressão 3D. Tinha código para detectar emulador por dentro. Tinha Raspberry Pis enfiados em tudo menos o orelhão (isso fica pro ano que vem). Era loucura de 8 bits para todo lugar que você olhava.

De certa maneira, é difícil escrever este post, porque não há como lembrar todas as coisas e pessoas legais. É impossível não deixar algo de fora, e para esses eu peço desculpas. Eu amei tudo que vi, tudo que fiz, e todos que encontrei na KansasFest 2014. E, se depois de ler tudo isto, você ainda não está se planejando para 2015, você não sabe o que está perdendo e tô pegando a bola e levando embora pra casa.

Veronica, relaxando ao lado de um Apple IIgs tocando MP3. Sim, você leu direito.
Veronica, relaxando ao lado de um Apple IIgs tocando MP3. Sim, você leu direito.

( Blondihacks )

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